terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Relato do Projeto "Descobrindo Caminhos da Poesia"

O DESAFIO DA POESIA

     O programa Gestão da Aprendizagem Escolar - Gestar II é um programa de Formação Continuada de professores dos anos/séries finais do Ensino Fundamental e tem como objetivo a criação de uma nova escola, que contemple a complexidade do mundo contemporâneo articulando-o com a educação dos alunos; uma escola mais democrática e amorosa, que vise à autonomia e à autorrealização de cada aluno e que, ao mesmo tempo, tenha como horizonte a justiça social, a felicidade e a emancipação da humanidade. Seu propósito é promover condições para que os alunos se desenvolvam de forma harmoniosa, tornando-se autônomos e cooperativos, críticos e criativos.
     Um dos projetos desenvolvidos na Escola Municipal Olavo Bilac, entre tantos trabalhos do Gestar II, é o projeto “Descobrindo Caminhos da Poesia” que foi pensando na possibilidade de oportunizar aos educandos o contato com a poesia, despertando neles emoções e posições a partir de experiência poética e criação de seus próprios textos que desenvolvemos o projeto.
     Mário de Andrade nos diz “Ninguém escreve para si, a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve para ser amado, para atrair, para encantar.” Partindo deste pensamento “Ninguém escreve para si...” e de que o funcionamento da escrita é “escreve-se para ser lido”, lemos, estudamos várias poesias de vários autores, nos “apossamos” delas para pesquisa e criamos nossas próprias poesias. Mas não podíamos ser egoístas e deixá-las guardadas dentro do caderno, sufocando. Decidimos, então, levá-las aos trabalhadores de comércios, fábricas, órgãos públicos e quem mais quisesse ouvir. As poesias foram e estão sendo apresentadas e a receptividade é encantadora e comovente. Sentimo-nos gratos somente em ver o brilho nos olhos de alguns que parecem beber das palavras que ouvem, declamadas por alunos embriagados de nervosismo e emoção. A reciprocidade é doce e calorosa, o que nos motiva mais ainda.
     Poesias sobre diversos assuntos, variadas rimas e sonoridade nos deram a oportunidade de descobrir muito. A essência de cada aluno representada em seus pequenos textos, a beleza dos versos e a autoestima de cada um, faz o trabalho ser compensador.
     Uma das poesias traz o verso “Fazer poesia é libertar o ser da opressão”.


POESIA

Fazer poesia
É libertar a alegria
È dar altos vôos
Pelo mundo
Dando asas à imaginação.

Fazer poesia
É brincar com as palavras,
Com os ritmos,
Com os sons,
Com alegria...

Fazer poesia
É uma terapia
É libertar o ser
Da opressão.

Fazendo a poesia,
Enfim, é a grande certeza
De paz e sossego
Ao nosso coração!

Luana Cardoso
7ª série

     Questionada sobre a intenção do verso, a pequena poetiza assim respondeu: “sora’, fazer poesia, parece que a gente se sente mais leve, parece que tem uma coisa que sai de dentro da gente, uma coisa que tá presa, a gente solta e flutua.”
     Começamos o projeto com certo receio. Geralmente, quando iniciamos algo novo não temos certeza aonde chegaremos, porém sempre há a esperança de bons resultados. O que queríamos era, através da palavra, exercitar a mente, aflorar sentimentos, expressar ideias, buscar inspiração e assim despertar o gosto pela poesia. Milton Hatoum, um dos principais nomes na literatura brasileira contemporânea, em uma entrevista a Luiz Henrique Gurgel para a revista “Na ponta do lápis”, quando questionado como incentivar crianças e jovens a ler e descobrir o prazer proporcionado pela leitura, entre outras palavras disse: ”Eu insisto nisto: o prazer não é sinônimo de facilidade.”
     Para trabalhar a poesia, primeiramente, estudamos alguns grandes poetas e suas poesias: Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, João Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, Pablo Neruda, Mário Quintana, Paulo Bentancur (autor presente na escola em setembro de 2009) e outros. Sendo assim incentivamos a leitura, o que é fundamental, pois pouco se escreve sobre aquilo que não se conhece.
     O interessante foi observar que o trabalho não foi visto apenas como uma obrigação e as palavras não foram colocadas ali apenas para cumprir uma tarefa, elas foram estudadas, medidas e cada qual fez sua poesia de acordo com o que sente, com o que deseja, com o que aspira. Os alunos perceberam que fazer poesia não é apenas encontrar palavras que rimam, mas é necessário analisar os recursos utilizados, desenvolver maior sensibilidade para a escuta e a escrita.
     Marisa Lajolo em seu texto “Lugares de morar na poesia e na memória” diz que a poesia é uma atividade que acompanha o homem há milênios, talvez desde seu surgimento na face da terra. Quem sabe por isso sejam poéticas tantas passagens de livros religiosos como a Bíblia, que falam das relações do ser humano com Deus, com os outros homens, consigo mesmo e com o universo...
     Assim como Mário Quintana em seu poema “Cidadezinha” fala de um espaço urbano, pequeno e sugere o carinho que esta cidade inspira, a pequena poetiza, com a pureza de suas palavras, assim escreve de sua cidade:

MINHA QUERIDA CIDADE


A cidade onde vivo
É berço de muita alegria,
As pessoas trabalham
E se divertem todo dia.

Na escola onde estudo
Tem muita paz e amor,
Uma biblioteca com bons livros
Para satisfação de um bom leitor.

Os pássaros que cantam livremente
Na minha terra de poesia
Alegram muito o sol
Que clareia nosso dia.

Na minha Doutor Ricardo
Faça chuva ou faça sol,
Há sempre tempo e espaço
Para o nosso bom futebol.

Venha para Doutor Ricardo,
A minha amada cidade,
É terra de gente hospitaleira
E muita felicidade.

Maéli Tuani Castoldi
7ª série

     O projeto provocou também reflexões sobre os problemas que envolvem nossos jovens e essa preocupação é vista na poesia de um aluno que procura alertar para os perigos da droga. Sabemos que não é uma poesia que vai solucionar o problema, mas podemos comparar com o que disse Madre Teresa de Calcutá em certa ocasião: “Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas, sem ele, o oceano seria ainda menor”.

DIGA NÃO ÁS DROGAS

Diga não às drogas
Diga às drogas não
Eu não sou maconheiro
Eu sou um cara bom

Eu não fumo maconha
O Igor também não
Espero que o Bassinho
Não seja um maconheirão.

Se você experimentar
É melhor não viciar
Se você viciar
Maluquinho vai ficar
Ficará doente
E logo morrerá

Se você fumar
Desprezado ficará
Vai chorar, vai roubar
E vai matar.

Tem gente que fuma
Só pra aparecer
É melhor isso
Você não fazer.

Tem gente que não fuma
E tem muitos amigos
Tem gente que fuma
E só tem inimigos
Você não quer viver sozinho, quer?

Obs.: Igor e Bassinho (3º e 4º verso da 2ª estrofe) são amigos e colegas de Adjam.


DROGAS: TÔ FORA!

Eu nunca vi a droga
Mas eu posso te dizer
Que essa porcaria
Você nunca queira ver.

Eu nunca usei droga
Mas eu já ouvi bastante
Pela televisão
E a boca dos palestrantes

Tem gente que diz: “quem fuma
É um cara muito irado”
Sendo que na verdade
É um baita de um coitado.

No mundo das drogas
É fácil de entrar
O difícil mesmo
É na hora de largar

Eu já ouvi bastante
E eu posso lhes falar
Que no mundo das drogas
Eu nunca irei entrar.

Adejan Pereira da Luz
7ª série

     O olhar dos alunos está voltado para vários lugares, mas há um lugarzinho especial do qual gostam muito – a escola. É o que sugere a poesia:

Meu dia

Meu dia começa cedo
Vou para escola estudar
Trabalho e não tenho medo
Pois chegou a hora de brincar.

Vamos lá sem parar
Vamos estudar
Não podemos desistir,
Mas sim persistir.

Vou chegando à escola
Por lá vou ficar
Todo dia, toda hora
Sem motivos para voltar.

Táuana Ubertti
7ª série

     Podemos dizer que alcançamos em boa parte nosso objetivo principal que era despertar o gosto pela poesia, porém nossa responsabilidade é ainda maior, a de não “matar” a semente germinada e dar continuidade para que o aluno tenha um olhar mais crítico, mais zeloso, para que possa dizer mais e dizer de outro jeito, fazer mais e ajustar o que já foi feito satisfazendo a si e ao leitor.

(...)
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma
teimosamente se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é explosão
como a de poucos franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
João Cabral de Melo Neto (p. 122)

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